Supperbiro lança "Antídoto"


 Quando um artista busca se conectar ao máximo com seu público, o rapper Supperbiro, do Imirim, Zona Norte de São Paulo, teve uma das ideias mais criativas que acompanhei nos últimos meses. Para divulgar seu novo projeto, ele produziu um press kit com cápsulas que simulavam um remédio. Dentro delas, um QR Code dava acesso a uma faixa exclusiva, despertando a curiosidade do público e preparando o terreno para o lançamento.

No dia 19 de junho de 2026, nasceu Antídoto, um projeto com três faixas que convidam o ouvinte a refletir e questionar a forma como vivemos, pensamos e enxergamos o mundo.Com três faixas, o projeto foi produzido junto com J. Kidou, produtor diretamente de Portugal. O trabalho é composto por "Quem é Você?", faixa-título que chegou acompanhada de um videoclipe e também foi a música distribuída no press kit, além de "Amalá" e "Tudo Bem".

Começando por "Quem é Você?", com participação de Jeff e DJ Nandez, a faixa traz alguns pontos interessantes logo na introdução da batida. É como se eu estivesse despertando para o dia e, com um recorte de sample do The Fugees, Biro começa mandando a real para nós, jogando na nossa cara que aquilo que talvez enxerguemos como sucesso pode ser, na verdade, a nossa própria escravidão.

Ao decorrer do verso, Biro continua nos trazendo questionamentos sobre comportamentos e situações do nosso cotidiano que, muitas vezes, passam despercebidos. Um dos versos mais marcantes é quando ele questiona a forma como consumimos arte: apenas postando, sem degustar, sem apreciar, vivendo uma eterna busca por sempre mais.

Esse questionamento é muito válido, pois hoje vivemos em um mundo dominado pelo streaming, onde o acesso à música é extremamente fácil e, com um simples botão, você pula para a próxima faixa. Tudo tem se tornado mais plástico e menos orgânico. São lançamentos atrás de lançamentos, fazendo com que percamos a capacidade de apreciar e viver o momento.

Nesse mesmo verso, ele também traz à tona a questão da comparação, que muitas vezes nos leva à depressão. É uma forma de criticar esse mundo das redes sociais, onde tudo parece perfeito e onde não podemos mostrar nossos erros e falhas por medo de sermos julgados.

Em meio a tantos questionamentos, outro ponto que acaba me pegando muito é quando Biro fala sobre prostituir nossos próprios valores para querer se incluir em algum lugar e sentir a sensação de pertencimento. Biro consegue traduzir essa ideia de forma simples e de fácil entendimento, mostrando que sua comunicação realmente está acima da média de muitos rappers da geração.

No refrão, com a voz forte de Jeff, a música reforça a pergunta central: quem é você? Quem somos nós? Quem nascemos para ser?

Já no final da faixa, Biro nos dá uma direção para essa reflexão:

*"É seu reflexo, jão. Olha pra dentro do seu olho, o que cê vê? Que que cê deixou pra trás? O que cê trouxe? Cê é memo quem quer ser ou quem quiseram que cê fosse?"*

Essa interpretação cabe a você. Eu tenho a minha, você pode ter outra. Mas, depois de tudo isso, fica a pergunta que dá nome ao projeto:

E aí, quem é você?

A segunda faixa do projeto é "Amalá", com participação de XAUIM. Aqui, encontramos uma música muito mais política, com um discurso voltado à ancestralidade e à identidade preta.

Logo no refrão de abertura já fica evidente qual é a proposta da faixa. Biro inicia pedindo licença às divindades africanas e, em seguida, aborda temas como pessoas negras defendendo discursos racistas, as injustiças estruturais da nossa sociedade e a contradição de termos construído universidades sem que a população preta tenha, de fato, acesso igualitário a elas.

O rapper também relembra a marca histórica de o Brasil ter sido o último país das Américas a abolir a escravidão, levantando um questionamento inevitável: será que realmente somos livres?

Ao longo da música, Biro critica a violência direcionada aos povos pretos, mostrando um retrato duro da realidade. Em um dos versos, afirma que hoje matamos mais pessoas negras do que os Estados Unidos perderam durante a Guerra do Vietnã. A comparação pode soar extrema, mas dialoga com uma realidade em que o Brasil registra índices de homicídio superiores aos de diversos países em guerra.

Um dos momentos mais impactantes da faixa acontece quando Biro dispara:

> "Faz a porra da lei servir pra quem? Veste a farda e acha que tem que atirar. Sem confronto, chegamos no ponto de onde matam crianças e vão no velório apavorar os familiar."

O trecho remete diretamente ao caso de Ryan, criança de quatro anos morta por um disparo policial. Seu velório foi marcado pela forte presença da polícia, situação que gerou tensão e foi interpretada por familiares e moradores como um ato de intimidação em um momento de luto.

Sem dúvidas, "Amalá" é a faixa mais pesada e contundente do projeto, tanto pelo peso de suas críticas quanto pela forma direta com que transforma a dor e a história da população preta em música.

O projeto se encerra com "Tudo Bem", faixa que conta com a participação da 1lum3. Aqui encontramos o momento mais sentimental de Antídoto. Por ser a música de encerramento, ela desacelera o ritmo do projeto e entrega uma atmosfera contemplativa, lembrando um pouco a vibe de "Já É Tarde".

A faixa se inicia com um áudio direcionado ao Biro, trazendo imediatamente uma carga emocional. Logo depois surge a pergunta: "E se acabasse tudo hoje?". A partir desse momento, a música se transforma em uma grande reflexão sobre a vida, o tempo e tudo aquilo que deixamos escapar.

Um dos trechos que mais me marcou foi:

> "Sentir o que não dá pra descrever, me permitir viver e ver o que não pude querer mais por não saber lidar, cuidar. Me apaixonar por algo que vi das minhas mãos escorrer."

Esse verso me transmite uma sensação que acredito que quase todo mundo já viveu: não estar preparado para receber algo importante e, por isso, acabar vendo aquilo escapar entre os dedos.

Outro grande destaque da faixa é a participação da 1lum3. Seu refrão é simples, mas extremamente eficiente, daqueles que permanecem na cabeça mesmo depois que a música termina.

Outro verso que resume muito bem a proposta da faixa é:

> "Não vou mentir, queria sim parar no tempo. Acho que é por isso que consigo sentir o cheiro dos momentos."

Essa frase simboliza perfeitamente o sentimento de Tudo Bem. É uma música sobre valorizar o presente, entender que os momentos passam e que, justamente por serem passageiros, merecem ser vividos por completo.

Ao ouvir o EP inteiro, passei a enxergar uma interpretação que talvez seja a grande mensagem de Antídoto. Para mim, cada faixa representa um remédio diferente: a primeira fala sobre identidade, a segunda desperta a consciência e a terceira cura através do sentimento. Quando Biro afirma que cada um desses momentos lhe dá força para continuar vivendo, essa leitura parece fazer ainda mais sentido.

Essa ideia também conversa diretamente com a capa criada pelo artista Caikan, que retrata o personagem tomando uma pílula. O antídoto, afinal, não está apenas no objeto representado na arte, mas em tudo o que é dito ao longo das três faixas

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